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O megapacote econômico anunciado pelo governo do Peru para enfrentar a crise do coronavírus

Sistema de saúde peruano é deficiente.
 Getty Images/BBC Brasil

Pacote de US$ 25 bilhões equivale a 12% do
PIB local. Para analistas, disciplina fiscal e boas reservas internacionais
ajudariam a enfrentar crise

Um plano sem precedentes para uma crise sem
precedentes.
O governo peruano está preparando o maior
plano econômico da América Latina até o momento para mitigar o impacto da crise
do coronavírus.
Serão mais de US$ 25 bilhões (R$ 130
bilhões), o equivalente a 12% do PIB do país.
Peru anunciou plano de estímulo à economia sem
 precedentes na região. 
Getty Images/BBC Brasil

Esses números são muito superiores às medidas
de estímulo já aprovadas por outros países da região: a Argentina, por exemplo,
prevê ajuda de US$ 5,7 bilhões, com subsídios diretos e financiamento de
negócios que equivalem a 1% de seu PIB.

“O impacto econômico do que está
acontecendo é sem precedentes e o plano econômico que temos que implementar é
um plano sem precedentes”, disse na TV María Antonieta Alva, ministra de
Economia e Finanças do Peru, um dos primeiros países a tomar medidas severas de
restrição à movimentação de pessoas.
Pelo menos até 12 de abril, um confinamento
obrigatório com toque de recolher está em vigor, além do fechamento de
fronteiras e espaço aéreo.
Até segunda-feira, 30 de março, o Peru
registrou pelo menos 900 casos confirmados e 24 pessoas morreram pelo vírus que
causou a pandemia.
Plano econômico anunciado pelo governo peruano
possui três estágios. 
Getty Images/BBC Brasil

Aos moldes
da Dinamarca

“No estágio de contenção, estimamos que
vamos gastar, em uma (primeira) fase, 30 bilhões de soles (US$ 8,5
bilhões)”, anunciou Alva no domingo.
Haverá uma segunda fase, revelou o presidente
do Banco Central do Peru, que consiste em um esquema de empréstimos a empresas
de mesmo valor.
 Em uma terceira etapa, seriam gastos outros
US$ 8,5 bilhões, acrescentou a ministra.
“Temos que usar o dinheiro público para
atender às necessidades das famílias vulneráveis”, disse o presidente do
país, Martín Vizcarra, na semana passada.
“Houve uma reação imediata e grande em
saúde e economia”, disse Hugo Ñopo, pesquisador principal do centro de
pesquisa Grade, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Mas além das medidas sanitárias, como é
possível que o Peru ofereça um pacote de ajuda e estímulo que, em termos de
porcentagem do PIB, seja comparável ao da Dinamarca?
Uma das
menores dívidas públicas do continente
“Temos o suporte fiscal para tomar
medidas ousadas”, disse Alva, confiante nas finanças do Peru.
Peru é uma economia bastante informal. 
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O país andino tem um bom colchão de poupança
após três décadas de disciplina fiscal e dívida baixa, o que também oferece
boas linhas de crédito para organizações multilaterais.

“As finanças públicas do Peru são as
mais fortes da América Latina”, disse à BBC News Mundo Jorge Chávez,
ex-presidente do Banco Central do Peru e agora CEO da empresa de consultoria
Maximixe.
 Segundo a Reuters, o Peru possui cerca de US$
68 bilhões em reservas no Banco Central e uma dívida pública de 27% do PIB, uma
das mais baixas da América Latina.
O país também tem inflação baixa e sua moeda,
o sol, é uma das menos voláteis da região.
“Nossas economias e nossos ativos nos
permitem enfrentar a crise”, disse Alva.
“Não economizaremos recursos para
proteger a saúde dos peruanos, contendo o coronavírus, e também garantiremos a
recuperação econômica”, acrescentou.
Confinamento obrigatório com toque de recolher
está em vigor no país até 12 de abril. 

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Reservas
internacionais

Os números parecem embasar as declarações da
ministra.
“Felizmente, o país está bem posicionado
em termos de reservas, números macro e fiscais. Temos espaço para investir o
que economizamos em 30 anos de disciplina macro e fiscal”, diz Ñopo.
“É agora que essa disciplina está dando
resultado” , acrescenta o analista.
“É por isso que acumulamos reservas
internacionais: para que, quando houver uma emergência como essa, possamos
usá-las”, acrescenta Chávez, ex-presidente do Banco Central.
Ñopo destaca que o fantasma da hiperinflação
em 1990, que atingiu mais de 7.000%, ainda assusta os peruanos.
E esse medo ajudou o país a manter uma
disciplina fiscal “rara nas economias latino-americanas”.
Em 2019, a economia peruana cresceu menos
que no ano anterior. 
Getty Images/BBC Brasil

“(A partir de 1990) todos perceberam que
estabilidade, equilíbrio fiscal é algo com que não se brincar, sagrado”,
diz Chávez, que presidiu o Banco Central durante o processo de reestruturação e
estabilização iniciado em agosto de 1990.

Além dessa disciplina, o Peru aproveitou o
boom da globalização econômica nas últimas décadas e o aumento contínuo do
preço das commodities, sua principal fonte de exportações.
“Agora é a hora de o governo retornar
aos cidadãos o resultado dessa disciplina e perseverança”, diz Ñopo.
Por todas essas razões, o Peru também está em
uma melhor posição para sair menos afetado da crise econômica do coronavírus,
que parece uma séria ameaça à região.
“Somos os melhores preparados dentro das
limitações que temos”, diz Ñopo.
Matérias-primas são as principais exportações
 do Peru. 
Getty Images/BBC Brasil

 Chávez concorda com ele.

“Isso já foi visto em situações
anteriores, como na crise financeira internacional de 2008: a economia peruana
em 2009 cresceu cerca de 1%; e em 2010, 10%”, lembra ele.
“(A economia peruana) terá capacidade de
se recuperar rapidamente, embora tudo dependa de quanto tempo a quarentena
durar, que é o que tem o impacto mais negativo”, ressalva.
Apesar do plano, o impacto do coronavírus
será sentido, porque o Peru também tem pontos fracos.
“Somos uma economia altamente informal ,
as redes de proteção ainda são precárias, temos variáveis ​​estruturais na
microeconômica que ainda são muito precárias”, diz Ñopo.
O avanço da economia nas últimas três décadas
fez o Peru deixar de ser um país pobre para um país de renda média.
Mas esse progresso não foi tão refletido em
uma rede de saúde ainda muito fraca, razão pela qual o governo tomou medidas
tão rígidas tão rapidamente para evitar a tensão do sistema.
Peru já tem centenas de infecções por
Coronavírus. 
Getty Images/BBC Brasil

Além disso, a economia do Peru registra seu
pior momento em uma década.

Em 2019, cresceu 2,2%, abaixo dos 4% do ano
anterior, devido, entre outros fatores, à queda no setor pesqueiro e à guerra
comercial entre a China e os Estados Unidos.
Antes da crise do coronavírus, o governo
estimava um crescimento de 4%, taxa difícil de ser alcançada agora.
Como sua economia se baseia na exportação de
matérias-primas, o Peru está muito exposto ao apetite da China, destino de 28%
das exportações do país e de 70% de suas vendas de cobre.
Ou seja, um crescimento menor do gigante
asiático, o que é previsto para este ano, terá forte influência nas finanças do
país sul-americano.
Já em dezembro do ano passado, o país
admitiuque não alcançaria a meta de reduzir seu déficit fiscal para 1% do PIB
em 2021 e a adiou para 2024.
Por BBC NEWS BRASIL

Fonte: Rio das Ostras Jornal

Origem.