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Distúrbios psiquiátricos e psicológicos derivados do abuso sexual infantil e pré adolescente

Resultado de imagem para abuso sexual infantilOs distúrbios psiquiátricos e psicológicos, apesar de serem sequelas intrapessoais que afetam diretamente a vida emocional pessoal da vítima, acabam por ter efeitos indiretos interpessoais, afetando os relacionamentos amorosos. É nos relacionamentos íntimos mais próximos que vivenciamos toda a gama de sentimentos presentes na afetividade humana, e se um dos membros apresenta algum transtorno que afete sua organização emocional, certamente sua relação amorosa será afetada também.
Whiffen et al (1999 apud ORLY e HUNSLEY, 2001), no entanto, encontraram dados em suas pesquisas que mostram que a inabilidade da vítima em estabelecer relações de apego saudáveis com seus parceiros é que traz como consequência a depressão, e não a história de abuso por si só. Com esse entendimento, eles sugerem que relacionamentos íntimos estáveis e acolhedores podem proteger os sobreviventes contra os sintomas na vida adulta.
Resultado de imagem para abuso sexual infantilOs sintomas básicos na criança vítima de abuso e no adulto sobrevivente, de acordo com Green (1995), são parecidos. No entanto diferem no sentido de que o adulto está menos conscientemente preocupado com o evento traumático pelo tempo transcorrido, pela falta de perigo real atual e pela aquisição de defesas emocionais mais eficientes. Novos sintomas aparecem ao longo da adolescência e vida adulta, tais como drogadição, transtornos alimentares e distúrbios de personalidade. Estas são consideradas tentativas mal adaptadas de se lidar com o trauma do abuso e com as memórias conscientes ou não que tendem a vir à tona mais facilmente diante do estabelecimento de relacionamentos íntimos e sexuais na vida adulta.
Resultado de imagem para abuso sexual infantilOs sintomas mais comuns encontrados na vida adulta são:
 Transtorno de Ansiedade: sobreviventes de abuso sexual infantil, de acordo com McGregor (2001), têm cinco vezes mais probabilidade de desenvolver algum tipo de desordem de ansiedade tais como ansiedade generalizada, fobias, transtorno do pânico e transtorno obsessivo compulsivo.
 Transtorno de stress pós-traumático complexo: os sintomas de stress pós-traumáticos tão frequentes na infância de crianças abusadas, transformam-se em transtorno de ansiedade generalizada na vida adulta, ou podem reaparecer a qualquer momento como transtorno de stress pós-traumático complexo e grave quando alguma situação de similaridade com o abuso engatilha os sintomas (GREEN, 1995; DILILLO e LONG, 1999).
 Depressão: alguns autores (GREEN, 1995; DILILLO e LONG, 1999; MCGREGOR, 2001) citam a depressão como o sintoma mais comum na vida adulta decorrente de um trauma de abuso. Aparece seguido de baixa auto-estima, sentimentos de alienação e isolamento e auto-imagem negativa. Herman (1981 apud GREEN, 1995) em suas pesquisas demonstrou que 60% das mulheres vítimas de incesto relatavam uma auto-imagem negativa, comparadas com 10% do grupo de controle sem história de incesto.
 Auto-agressão e ideação suicida: um estudo de Van der Kolk et al. (1991 apud MCGREGOR, 2001) mostrou que 79 por cento de indivíduos com comportamentos auto-agressivos relatavam histórico de abuso sexual na infância. Mullen et al. (1993 apud MCGREGOR, 2001) encontrou resultados nos quais os sobreviventes de abuso sexual apresentaram comportamentos suicidas de 20 a 70 vezes mais que o grupo controle.
 Dissociação: de acordo com Green (1995), o abuso sexual e o abuso físico muito intensos na infância são os maiores fatores de predisposição para o desenvolvimento de transtorno dissociativo na vida adulta. McGregor (2001) cita casos em que o transtorno dissociativo desenvolve-se de forma tão intensa que pode ser confundido com esquizofrenia.
 Transtorno de personalidade borderline: está fortemente associado ao abuso sexual. É como se houvesse uma incorporação gradual dos sintomas primários do trauma do abuso tais como depressão, labilidade emocional, impulsividade, ambivalência, ansiedade de separação, cisão da personalidade, dificuldade em confiar nas pessoas e medo de intimidade na estrutura de personalidade (GREEN 1995; DILILLO e LONG, 1999). Trippany (2006) cita vários estudos relacionando abuso sexual na infância e o transtorno de personalidade borderline e frisa a maior ocorrência de tais sintomas em casos de abuso que incluíram negligência de cuidados adequados por parte dos pais (ou quando os mesmos foram os abusadores). A inconsistência de cuidados primários é um precursor da vinculação emocional inconsistente exibida em adultos com transtorno borderline.
 Sintomas histéricos: Freud (apud GREEN, 1995) considerava o abuso sexual infantil como a maior causa de sintomas histéricos na vida adulta. As vítimas que reprimem a memória do trauma podem tê-las emergindo do inconsciente na forma de sintomas histéricos.
 Abuso de substâncias: é uma sequela comum entre vítimas de abuso na infância, que normalmente aparece durante a adolescência ou na vida adulta. O abuso de álcool ou drogas pode vir para anestesiar a ansiedade advinda dos primeiros contatos sexuais na adolescência que trazem a memória do abuso, ou para aliviar os sintomas complexos de ansiedade e depressão que tais pessoas vivem (GREEN, 1995; DILILLO e LONG, 1999). Carnes (1991) também relata em seus estudos, uma constatação de que quanto mais alguém sofreu abusos na infância, maior é o número de suas dependências depois de adulto –não só dependência química, mas também alimentar, sexual, etc.
 Somatizações: estas vêm como uma forma de deslocamento da ansiedade e da dor trazidas pela experiência de abuso. Aparecem como dores somáticas e doenças psicossomáticas. Muito comum entre as mulheres vítimas de abuso é a dor pélvica crônica sem causa fisiológica (GREEN, 1995; LOEB e WILLIAMS, 2002) e candidíase crônica (MCGREGOR, 2001).
 Distúrbios alimentares: a literatura (DILILLO e LONG, 1999; GREEN, 1995; MCGREGOR, 2001) mostra uma forte relação entre mulheres bulímicas e anoréxicas e o abuso sexual. A anorexia pode aparecer como uma forma de evitar a identidade sexual adulta, fazendo com que haja um atraso no aparecimento de sinais físicos e psicológicos da sexualidade feminina. Já a os episódios de vômito relacionados à bulimia podem simbolizar o clima de segredo relacionado ao abuso e a obesidade aparece também como uma barreira contra a sexualidade.
Muitos dos sintomas acima acabam por se tornar egossintônicos e considerados como traços de personalidade, ficando assim dissociados do evento do abuso, não sendo mais considerados sintomas do trauma. Isso normalmente dificulta o diagnóstico em psicoterapia de adultos sobreviventes de abuso na infância.
Fonte: Diário Riostrense

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