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Segunda geração de usuários de crack toma as ruas e preocupa especialistas

Resultado de imagem para crianças usando crackA mãe o apresentou à rua; a rua o conduziu às drogas, e, de uma droga à outra, ele chegou ao crack. Nessa rota, L. conheceu as ameaças de Manguinhos, Nova Holanda, Jacarezinho e Bandeira Dois. Há pouco tempo, vagou pelo viaduto do Morro da Mangueira. Com 17 anos, viu sua vida se transformar num retrato da segunda geração de usuários da pedra. Muitos deles seguem os passos de parentes encarcerados pelo vício. Assim como em São Paulo — onde um ex-aluno do tradicional colégio carioca Santo Inácio foi resgatado da Cracolândia por velhos amigos —, o crack segue fazendo vítimas no Rio. A diferença é que, na capital paulista, o problema se concentra no Centro; aqui, as cracolândias se pulverizam, ocupam subúrbios e têm adentrado favelas.
Imagem relacionadaTodas as comunidades pelas quais L. passou abrigam trincheiras de usuários de crack. Desde abril, ele está sob os cuidados da Central de Recepção Ademar Ferreira de Oliveira, espaço da prefeitura na Praça Onze conhecido como Central Carioca, onde são acolhidos adolescentes em situação de vulnerabilidade. Antes de chegar lá, foi atendido por assistentes sociais na Praça Saens Peña, na Tijuca. Era só pele e osso. Mas estava distante de qualquer cracolândia, como nas outras vezes em que foi socorrido por agentes do município. “É quase um instinto de sobrevivência”, diz Aline Santana, psicóloga que o acompanha. Ela conta que, sempre que L. percebe estar perto do fim da linha, sai das cenas de consumo e vai para áreas mais acessíveis, como se pedisse ajuda. Numa dessas ocasiões, ele foi achado dentro de um bueiro.
UMA HISTÓRIA DE PERDAS
Resultado de imagem para crianças  crackO caminho de L. é marcado por tragédias. Num daqueles temporais que arrasam o Rio, a casa dele, no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, desabou. Ainda criança, um dia depois de seu aniversário, viu o pai morrer ao cair de uma laje. A mãe, perturbada com a perda, foi para as ruas e se entregou ao crack. Ele, junto com os dois irmãos mais novos, passou, então, a morar com a avó. Mas a mãe buscou por ele na saída do colégio para levá-lo a uma vida de sem-teto, pedindo esmolas. O dinheiro servia para alimentar a dependência química dela, que logo se tornou a dele também.
— Quero mudar — diz o adolescente, agitado por transtornos psíquicos agravados pelo crack.
Assim como L., 283 dos 396 adolescentes abordados no ano passado por agentes da prefeitura admitiram consumir drogas. O número corresponde a 71,46% do total. Entre crianças de até 11 anos, o percentual chegou a 46,51% (60 de 129).
Imagem relacionadaB., que hoje tem 14 anos, começou no vício antes dos 9, quando morava no Morro da Providência, no Centro. Nunca conheceu a mãe, e o pai morreu. Era cuidada pela avó e pela bisavó. E a primeira vez que viu alguém usando drogas foi em casa: o tio, que fumava crack. B. conta que, para comprar as pedras, ele roubava da família. Muitas vezes a agredia e a forçava a experimentar a droga. A menina fugiu com o irmão mais novo para a Favela do Jacarezinho, onde se rendeu de vez ao vício.
Resultado de imagem para usuarios  crack— Ficávamos debaixo de uma ponte, onde montamos uma cabana de madeira. Uma moça nos dava pão e lençol. Outra, usuária de crack, também gostava da gente e me chamava de sobrinha. Ela não deixava ninguém derrubar nossa barraca — conta B. enquanto enxuga lágrimas.
B. chora ainda mais ao falar do preconceito que diz sofrer de outras meninas do abrigo da prefeitura em que mora, a Casa Viva, na Penha: “Elas me batem e me chamam de cracuda”. Um tipo de discriminação parecido com o vivido por L. na Central Carioca, onde os meninos chegaram a proibi-lo de se sentar à mesa.
Resultado de imagem para usuarios  crackAlgumas quadrilhas não permitem a venda de crack nas favelas que dominam. Anos atrás, dependentes concentrados na Avenida Brasil, em frente à favela Parque União, incomodaram até a bandidagem. Eles continuam lá, com barracas às margens do asfalto, no meio das obras do BRT Transbrasil, mas em número menor. O que não significa que a quantidade de usuários tenha diminuído. Na verdade, a maior parte da cracolândia migrou para a Rua Flávia Farnese, no Complexo da Maré. Diariamente, cerca de cem usuários perambulam por lá. Não podem, contudo, circular livremente: o tráfico local delimita a área onde estão “autorizados” a permanecer.
Imagem relacionada— A droga começou a aparecer no Rio por volta de 2005, depois de se tornar um problema em outras capitais, como São Paulo e Porto Alegre — diz o psiquiatra Paulo Telles, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad) da Uerj. — Naquele ano, recebemos um usuário de crack. Em 2006, mais de cem. No ano seguinte, duas ou três vezes mais. Entre 2011 e 2012, vivemos o pico. A partir de 2013, começa a cair. Hoje, nossos atendimentos relacionados ao crack diminuíram muito. Não houve uma ação preventiva ou qualquer estratégia que explicasse esse freio. Não consigo dizer o que aconteceu — afirma o especialista.
Resultado de imagem para usuarios  crackA Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos diz que a situação não é tão grave quanto em 2011, mas não acredita numa queda acentuada. Desde o início do ano, em oito ações realizadas, afirma ter encontrado uma média inferior a 30 pessoas nos pontos de uso da droga. No ano passado, 1.790 moradores de rua disseram a agentes da prefeitura que usavam crack, uma queda de 34,5% em relação a 2015, quando 2.734 afirmaram consumir a droga. Mas os assistentes sociais confirmam que as cracolândias se espalharam e que, em muitos casos, foram parar dentro das favelas.
Resultado de imagem para usuarios  crackO município está finalizando um novo mapeamento do consumo de crack no Rio. Já concluiu que as maiores cenas de consumo estão dentro ou nos limites de comunidades da Zona Norte, como Maré, Jacarezinho, Manguinhos, Bandeira Dois, Juramento e Cajueiro, além de Antares e Cavalo de Aço, na Zona Oeste. Outras, em áreas mais centrais da cidade e na Zona Sul, desapareceram ou perderam força, como na Lapa, no Morro do Cantagalo, em Ipanema, e nas proximidades do Morro Santo Amaro, no Catete. Por outro lado, surgiram pequenas áreas de uso, por exemplo, na Praça Nelson Mandela, em Botafogo, e nas proximidades do acesso ao Túnel Santa Bárbara, em Laranjeiras, ambas com grande frequência de crianças e adolescentes.
Segundo a assistente social Lidiane Malanquini, falta um programa para coordenar as ações direcionadas a usuários de crack no estado:
Resultado de imagem para usuarios  crack— Temos iniciativas municipais. Na capital, os usuários são atendidos pelos Centros de Atenção Psicossocial Álcool Outras Drogas (CAPSad), pelos Centros de Atenção Psicossociais Infantis (CAPSi) e por programas como o Consultório na Rua. Mas são ações que não tratam apenas da questão do crack. Abarcam outros grupos, muitas vezes com número reduzido de funcionários. Todo mundo dialoga, mas não existe um grande programa. Além disso, ano passado, logo após a Olimpíada, um projeto importante, o Proximidade (criado pela Secretaria municipal de Desenvolvimento Social e que atendia, especificamente, a população das cracolândias), deixou de existir.
O pesquisador Francisco Inácio Bastos, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, concorda com o diagnóstico sobre o quadro dos programas de combate ao crack no Rio:
Resultado de imagem para usuarios  crack— Existem ações locais, de uma ou mais instituições ou ONGs, mas são todas fragmentadas, sempre tópicas, embora bem-sucedidas em alguns lugares. Mas a impressão que tenho é que não há um plano que junte governo e sociedade civil. E o problema é complexo, já foi e voltou várias vezes. Além disso, é uma população que migra muito. Um usuário sai de Manguinhos, vai para o Jacarezinho, anda pela linha do trem… E, com os grandes eventos no Rio, como a Olimpíada, perdeu visibilidade, até porque foi para outros locais menos à vista de todos.
Imagem relacionadaSecretária municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Teresa Bergher afirma que, desde o começo do ano, a prefeitura trabalha para pôr em andamento programas que ampliam o atendimento aos usuários de crack. A ideia, diz ela, é retomar o Proximidade com ajuda federal, assim como realizar novos convênios com instituições especializadas em tratamento de pessoas com dependência química. Essa última iniciativa, afirma a secretária, deve ter edital lançado nos próximos meses.
— Estamos buscando parcerias com instituições, como a Igreja Católica. É uma questão muito desafiadora que temos a enfrentar. Mas temos que acreditar — diz Teresa, que, mês passado, inaugurou um abrigo para usuárias de drogas grávidas ou que tenham tido filhos recentemente.
Fonte: Diário Riostrense

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